Primeiros Capítulos

Capítulo 1: Casa

Rachmaninoff se enfiou pelo portão entreaberto daquele casarão escuro e sombrio e Luna, desanimada, por uma fração de segundo pensou em deixar ele lá, mesmo sabendo que tinha que ir atrás.
Procurou a campainha, mas não achou. Empurrou o portão e olhou para dentro, a tempo de ver o cachorro entrando pela porta da casa. Suspirou, e sem saber direito o que fazer foi atravessando o jardim. No lusco fusco do começo da noite aquele lugar parecia ter mais sombras do que luzes. As plantas cresciam desgovernadas, trepando pelas paredes e pela torre da mansão. Chegou na porta, que era pesada e solene, com um leão de pedra de cada lado. Bateu na madeira, tentando chamar a atenção de alguém.
“Olá! Tem alguém aí?”
Nada. Sem outra opção, ela foi entrando, um pé de cada vez, pisando devagar no mármore preto e branco do hall de entrada, tentando imaginar para onde iria se fosse um cachorro pequeno e curioso em uma casa daquele tamanho.
Se viu em uma sala enorme, com muitas janelas, todas com as cortinas fechadas. O pouco de luz que entrava permitia ver, mal e mal, os móveis antigos, as paredes forradas de madeira escura e os quadros com molduras pesadas. Tudo parecia estar no mesmo lugar há uns 100 anos, pelo menos.
“Oiê!” Ela chamou de novo. “Estou procurando meu cachorro, desculpe entrar assim…” Foi se explicando, tentando alertar alguém. Não queria ser confundida com um ladrão, e muito menos ser responsável pelo ataque do coração de um possível morador.
Sentiu uma coisa ao seu lado, como se alguém a estivesse observando, e se virou devagar. Levou um susto ao dar de cara com um par de olhos na altura do seu rosto. Era uma raposa, imóvel sobre uma mesa, encarando a intrusa com um olhar vazio. Um olhar de vidro, de bicho empalhado. Logo percebeu que a raposa não estava sozinha.
Havia também alguns patos, uma iguana, e outros mais, lhe fazendo companhia. Todos devidamente mortos e arrumados em suas melhores posições para o deleite das pessoas de antigamente.
A fauna da sala incluía até um pinguim. Luna se lembrou de Lorenzo, o pinguim que encontrou na neve perto de casa quando era criança. Desesperada para ter um bichinho de estimação, e diante das recusas de seus pais de lhe darem um gato ou cachorro, ela decidiu que um pinguim morto congelado serviria muito bem. Levou o bicho para o quarto, batizou ele com o nome do seu vizinho e melhor amigo de infância, e o pôs dentro do armário, feliz por finalmente ter um bichinho para chamar de seu, ainda que secreto.
Mas Lorenzo, quentinho e confortável entre os brinquedos de Luna, logo começou a derreter e cheirar, como convém a uma criatura morta, chamando a atenção de seus pais. Se naquela idade ela tivesse ouvido falar em bichos empalhados, provavelmente teria tentado fazer isso com Lorenzo. Sorte do pinguim que Luna ainda não conhecia o fantástico mundo da taxidermia, ou poderia ter tido um destino pior.
Engraçado ter esbarrado com um pinguim morto naquela casa, ela pensou, justamente depois de ter ido encontrar no parque com o Lorenzo original. Ele estava passando alguns dias em Londres pesquisando algum vírus esquisito, como sempre, antes de voltar para seu doutorado na Suécia.
Luna era a única, entre a família e os amigos antigos, que não era cientista. Era cantora de ópera. Mezzo soprano para ser mais precisa. Ou seria, depois da formatura do ano seguinte. Segundo seu irmão, ela tinha resolvido ser artista “só para ser do contra.”
Suas lembranças foram interrompidas por um barulho vindo do segundo andar da casa. Seria Rachmaninoff? Ela foi até o pé da escadaria, mas hesitou diante do primeiro degrau.
“Oláá!” Chamou.
Nada. Talvez a casa estivesse vazia, pensou. Mas quem sai de casa e deixa as portas abertas daquela maneira? Subiu o primeiro degrau. “Estou procurando meu cachorro… Desculpe entrar assim…” e a cada passo ela continuava, se desculpando e subindo, sem saber se estava com mais medo de assustar um morador ou de encontrar um fantasma naquela casa estranha.
Um degrau rangeu, e ela deu um pulo. Imaginava a qualquer momento dar de cara com uma velhinha de duzentos anos, moradora da casa desde a adolescência, passada na época vitoriana: ambas, a senhorinha e a casa, envelhecendo alheias ao mundo lá fora. Ou pior: encontrar a velhinha em plena juventude, parada no tempo, perguntando a Luna em que ano elas estavam. Com Rachmaninoff no colo, aninhado junto a uma estola de mink dos anos 30.
Sacudiu a cabeça, tentando afastar os pensamentos inúteis e se concentrar em encontrar o cachorro. Chegou no topo da escada e viu um corredor comprido, com várias portas. Enquanto observava os desenhos que se repetiam no carpete, mexeu no cabelo, como sempre mexia quando não sabia o que fazer. E foi em frente, como normalmente fazia quando estava perdida.
Continuou chamando, tentando alertar alguém, com uma voz cada vez mais baixa e mais desanimada. Ela não podia ir embora sem levar Rachmaninoff de volta, mas não podia continuar se enfiando pela casa dos outros daquela maneira. E tecnicamente o cachorro nem era dela. O que ia dizer para o Vlad?
Por que tinha deixado ele sem coleira? Resmungou consigo mesma. Mas ele estava tão feliz, pulando pela grama e entre as árvores, que ela se esqueceu de prendê-lo no caminho de volta.
Luna e Rachmaninoff gostavam de andar soltos pelo Hampstead Heath, e também pelas ruas tranquilas e cheias de árvores ao redor do parque, que levavam de volta à estação de metrô. Porém Luna se distraiu tanto xeretando pelas janelas das casas e imaginando como seria viver naquelas salas e quartos, que nem se deu conta do que Rachmaninoff estava aprontando. Agora, graças à sua própria cabeça de vento, ela estava de fato dentro de uma daquelas casas.
Ao dar mais um passo no corredor ela escutou um barulhinho, quase imperceptível.
“Pin, poin, poin!”
Prendeu a respiração para ouvir melhor.
“Pin! Poin!”
Parecia musiquinha de videogame.
Olhou para baixo, se concentrando mais ainda no desenho do carpete. Ela ficaria menos surpresa de encontrar um fantasma ali do que um videogame. Avançou mais um pouco, tentando localizar o som. Olhou para dentro de algumas portas, até que encontrou o cômodo de onde vinha a musiquinha.
Seus olhos, agora acostumados com a penumbra, identificaram as silhuetas dos móveis lá dentro. Algumas estantes, um sofá e uma mesa. Do fundo do cômodo vinha o som. E uma luz também. Ela percebeu que havia alguém ali, sentado em uma poltrona.
Ele era alto e tinha os ombros largos, que mesmo curvados para a frente, pareciam grandes demais para uma pessoa. Mãos enormes seguravam um aparelho eletrônico, que com sua luz azulada e piscante, iluminava seu rosto. Nessa hora Luna sentiu as pupilas dilatarem e o estômago ficar gelado.
Aquele não era um rosto humano.
A criatura levantou os olhos do jogo e olhou calmamente em sua direção, como se não estivesse surpreso em ver Luna ali.
Ela, por sua vez, tentava voltar a respirar, imóvel na porta do quarto, olhando de volta. Ele tinha olhos de bicho, de lobo talvez, mas sua expressão era humana. Triste, até. Ele parecia querer dizer alguma coisa que Luna não queria ficar para saber, mas ao mesmo tempo ela não conseguia se mexer.
Os dois ficaram ali parados, em suspenso, observando um ao outro. Era como se qualquer movimento pudesse quebrar aquele momento congelado, e alguma coisa terrível fosse acontecer.
Foi quando Rachmaninoff latiu e passou por trás de Luna.
O tempo voltou a andar, e rápido. Ela desceu as escadas atrás do cachorro, tão depressa que os pés quase se descoordenaram, mas ela segurou no corrimão e não caiu. Se jogou sobre Rachmaninoff como um jogador de futebol americano mergulha para agarrar a bola.
Segurando ele com todos os braços e mãos que conseguiu, correu em direção à porta em passos atabalhoados, sem ter coragem de olhar para trás.
Atravessou o jardim, saiu pelo portão e continuou correndo até chegar no ponto de ônibus. Olhou para o caminho que tinha feito e a rua continuava igual. Tranquila e silenciosa, com suas árvores imóveis naquele dia sem vento. Finalmente chegou o ônibus. Lá dentro ela conseguiu respirar um pouco, mas continuou agarrada com o cachorro. Só iria soltá-lo na porta da sua própria casa.

Capítulo 2: Prédio

Luna parou diante do prédio, ainda segurando Rachmaninoff debaixo do braço como Dorothy carregava Totó quando estavam fugindo de alguma coisa. Mas não pôde abrir as portas de vidro que davam acesso aos elevadores mais lentos do mundo porque não achou as chaves. Só então se deu conta de que a bolsa e o celular também não estavam com ela.
Olhando os 27 andares de concreto que se erguiam à sua frente, ela tentava lembrar onde teria deixado as coisas. Quando saiu daquela casa sua cabeça estava tão ocupada em segurar o cachorro e ir embora, que ela pegou o cartão do ônibus no bolso e seguiu em frente sem dar pela falta da bolsa, que ficou para trás. E agora?
Um garoto de cabelo azul saiu do prédio e segurou a porta para ela entrar. Que sorte, pensou, já que quase ninguém morava ali ultimamente. A maioria dos 146 apartamentos da Balfron Tower estavam vazios, porque o prédio, caindo aos pedaços, estava sendo lentamente desocupado para uma reforma.
Projetado para ser moradia popular nos anos 60, ele agora era ocupado por dois tipos de gente: famílias sem dinheiro vivendo em apartamentos cedidos pelo governo, e artistas que graças a um programa de incentivo às artes pagavam aluguéis camaradas para viver ali e evitar que o lugar fosse invadido pelos sem-teto. Vlad estava no segundo grupo, que Luna chamava de pobres por opção, ou pobres com esperança. Quase todos achavam que um dia iriam se dar bem, diferente das moças de véu sobre o rosto que estavam muito ocupadas cuidando de 4 ou 5 crianças para pensar se um dia iriam ou não deixar de ser pobres. Mas eram todos iguais quando os canos da cozinha vazavam ou os dois elevadores quebravam ao mesmo tempo.
Não que Vlad fosse exatamente pobre, ela observou. Ele era professor universitário e um concertista mais ou menos famoso, fazendo apresentações pelo mundo… Mas era artista, e do tipo que via toda a humanidade como sua plateia. Ou, no máximo, como assistentes de palco, o que talvez fosse o caso de Luna, a namorada.
Ela subiu pelo elevador, que rangeu subindo por 18 andares antes de deixá-la diante de um longo corredor de concreto e luz fria. As portas e janelas se seguiam uma ao lado da outra, rodeadas por azulejos quebrados. Parecia um cortiço de quartos minúsculos, mas na verdade eram as portas dos apartamentos de três andares diferentes espremidas em um único corredor. Alguns moradores abriam a porta e entravam em casa, outros subiam uma escada, e outros desciam. Os elevadores, que ficavam numa torre separada, só paravam nos andares múltiplos de três. Tudo ideia de um arquiteto chamado Goldfinger que, dizem por aí, inspirou com suas vilanias arquitetônicas um inimigo de James Bond.
Ela ouviu o som do violino e bateu na porta número 106. Rachmaninoff latiu ao seu lado e depois de alguns segundos a porta se abriu.
“Onde você estava? Liguei várias vezes pro seu telefone e você não atendeu!” Vlad perguntou enquanto o cachorro passava por baixo das suas pernas e descia as escadas. Ainda com o violino na mão, ele continuou. “Você não tem chave, não?”
“Esqueci de levar,” ela respondeu, tentando fazer cara de paisagem e entrar no apartamento. Ele continuou parado. “Olha para mim,” e segurou seu rosto. “Tá tudo bem?”
“Tá sim,” disse. Os cabelos claros de Vlad caíam sobre seus olhos, que continuavam fixos nela, tentando ler seus pensamentos. Ela soltou a mão dele das suas bochechas e forçou um sorriso. “Posso entrar?”
Ele lhe deu um beijo protocolar, virou as costas e desceu as escadas. Ela seguiu em silêncio e foi direto para o quarto. Ouviu Vlad retomar o violino, e sentou na cama tentando colocar as ideias em ordem.
O que fazer com a bolsa? Voltar lá estava fora de questão. Poderia mandar uma carta para a casa e… e pedir o quê? Para quem? Mandar uma carta para aquela criatura? Não fazia sentido, suspirou. Começou então a pensar na trabalheira de cancelar os cartões de crédito, cartões de banco… Comprar outro telefone… Que prejuízo, choramingou. Ia perder as fotos que estavam no celular, os contatos…
Levantou e andou até a janela. “Amanhã eu penso nisso!” Falou para si mesma em voz alta, e logo se lembrou de ficar quieta. Não queria ter que explicar o que tinha acontecido para Vlad, e muito menos contar que tinha perdido Rachmaninoff, mesmo que por apenas alguns minutos. Na verdade, nem ela mesma sabia direito o que tinha acontecido naquela tarde. Lembrou dos bichos empalhados, da música de videogame, dos móveis antigos… E dos olhos da criatura, olhando para ela. Era como se ele a conhecesse, e de alguma forma parecia que ela o conhecia também. O que obviamente não fazia nenhum sentido, porque ninguém poderia conhecer e depois esquecer uma figura como aquela.
“Luna?”
Por um instante, ficou surpresa de ouvir a voz de Vlad, trazendo-a de volta para o apartamento.
“Você pode vir aqui?” Ele pediu, da sala, sem parar de tocar. Quando ela chegou, ele apontou na direção de algumas folhas impressas sobre o sofá. “Dá uma olhada nisso, por favor?”
“É a cena nova?”
“Não, eu reescrevi a abertura.”
“De novo?”
“Eu sei, eu sei!” Ele esbravejou. “Eu sei que os ensaios começam semana que vem e eu ainda não tenho nem a primeira cena! Não preciso que você fique me lembrando disso o tempo todo!”
Na verdade era Luna que ficava se lembrando disso a cada hora, repetindo para si mesma que ele estava nervoso, que era a primeira vez que os formandos do mestrado do Royal College of Music iriam montar uma ópera escrita por ele, e que ela precisava ser compreensiva.
Respirou fundo, como se estivesse enchendo os pulmões de paciência, e sentou no sofá para ler. A cada parágrafo ela se distraía, suas ideias voando para o pinguim empalhado, para o jardim cheio de plantas que não eram cortadas, para o medo de perder Rachmaninoff… E o pensamento acabava chegando na bolsa perdida, e ela voltava para a leitura.
“Você vai começar a ópera com a cena em que os dois se reencontram, com 90 anos?” Ela questionou, levantando os olhos para Vlad.
“Vou. Por quê?” E ele parou de tocar e ficou olhando para ela. “Você acha ruim?”
“E como a história vai terminar?”
“Com a cena em que eles se encontram pela primeira vez, quando ela tem 17 anos.”
Luna pensou um pouco, enquanto Rachmaninoff pulava no seu colo. A ópera era sobre a história real de Clara Rockmore, uma concertista clássica que ficou famosa tocando teremin, o primeiro instrumento eletrônico do mundo, e Leon Theremin, o cientista russo que tinha inventado o instrumento e era também um espião soviético.
“Acho que você devia começar pela cena em que ela está se apresentando no Carnegie Hall, em Nova Iorque, em mil novecentos e trinta e poucos.” Explicou. “E Theremin pode estar na plateia, olhando para ela com cara de apaixonado.”
“Pronto.” Luna continuou, satisfeita com sua própria ideia. “Assim você apresenta o instrumento, mostra como é o som do teremin, diz onde e quando a ópera acontece, e deixa claro que existe uma história de amor entre os dois.” Ela disse. “Além disso é uma cena grandiosa, boa para começar o espetáculo.”
Vlad ficou quieto, olhando para um copo de água vazio esquecido sobre a mesa.
“Você concorda comigo, Rach?” Ela perguntou para o cachorro, fingindo não perceber o silêncio de Vlad. Ela às vezes abreviava o nome do cachorro, argumentando que era comprido demais para um cachorro tão curtinho. Mesmo assim ela gostava do nome Rachmaninoff, escolhido por Vlad por causa do pianista russo que era um dos seus músicos preferidos. Nas últimas semanas ele estava meio deixado de lado (o pianista, não o cachorro) em função de Leon e Clara. Luna estava pesquisando tudo que podia sobre a época e sobre Clara, já que ela iria interpretar o papel principal na ópera.
“É a história de um instrumento musical invisível, que você toca sem encostar, e do caso de amor invisível dos dois, que nunca ficaram juntos. Entendeu, Rach?”
“Não.” Vlad falou, finalmente. “Essa cena não faz o menor sentido para começar a história,” disse sem olhar para Luna, com o violino parado na mão e a vista ainda perdida na direção do copo de água.
“Bom, eu acho que ia ficar ótimo,” ela argumentou, levantando do sofá e colocando o cachorro sobre a almofada. “E daria o tom de toda a história que vem depois. Mas é você que está escrevendo, não eu.”
E foi para a cozinha. Mesmo com tanto esforço, chegava uma hora em que ela perdia a paciência. Para quê pedir sua opinião, se ele discordava de tudo? Ela foi procurar alguma coisa para comer, resmungando, sabendo que mesmo depois de discordar e reclamar, ele quase sempre acatava suas sugestões.
Vlad voltou para o violino, e logo em seguida Luna ouviu o interfone. Atendeu e alguém perguntou por ela. Era uma entrega. Não lembrava de ter feito nenhuma compra. Quem faria entrega em um sábado à noite?
Vlad perguntou a mesma coisa.
“Deve ser algum livro que eu comprei,” ela improvisou, no caminho para a porta. “Sabe como essas empresas de entregas são, né? Elas contratam gente para trabalhar no horário livre… Deve ter alguém saindo para algum bar aqui por perto, que resolveu fazer a entrega agora…”
Evitar perguntas tinha se tornado um hábito tão arraigado para Luna que ela já estava arrumando justificativas para um pacote que nem sabia o que era.
Quando abriu a porta, viu um moço segurando uma caixa tão grande que quase cobria seu rosto. Ele sorriu para ela, que só então notou que era uma entrega de uma loja de flores. Mais intrigada ainda, assinou o recibo e levou o pacote para o quarto. Rachmaninoff a seguiu, antecipando uma caixa vazia para brincar.
A tal entrega era de fato um arranjo enorme de flores. Eram lindas, de algum tipo que ela não sabia o nome. E junto com as flores ela viu, surpresa, sua bolsa perdida. A criatura da casa tinha mandado a bolsa de volta para ela.
O cachorro latiu, pedindo a caixa, mas Luna a fechou sem fazer barulho e colocou dentro do armário, atrás das roupas. Deitou-se na cama e ficou olhando para o teto. Contrariado, Rachmaninoff se deitou ao lado de Luna, e ambos ficaram em silêncio, ouvindo a música do violino.

Capítulo 3: Oboé

Os pés afundaram na neve quando ela tentou andar até a casa nova. Luna estava com seis anos de idade e tinha morado quase toda a vida em uma ilha no arquipélago de Galápagos, no meio do Oceano Pacífico. Estava sempre com os pés cheios de areia da praia. Usava sapatos só de vez em quando, e meia não usava nunca.
Mas naquele dia se viu coberta por camadas e camadas de roupas, algumas que ela nem sabia como se chamavam, diante da imensidão branca que ia até a porta. Deu alguns passos, mas quase não saiu do lugar. Irritada, tentou chutar a neve que a atrapalhava, mas também não conseguiu muita coisa. Tudo porque seus pais tinham decidido de uma hora para outra se mudar para Puerto Williams, uma cidadezinha do Chile que ficava praticamente na Antártica.
Nos meses e anos seguintes ela foi aos poucos se acostumando ao novo ambiente, aprendendo a esquiar e a fazer bonecos de neve. Mas de vez em quando sentia saudades das iguanas e tartarugas gigantes com as quais tinha crescido.
Agora, quase 14 anos depois, Luna estava em Londres, olhando para uma ilustração de uma iguana muito parecida com as de Galápagos, pendurada na parede de uma sala de concertos onde sua amiga Simone tocava oboé em um trio de música barroca.
Enquanto a música entrava pelos seus ouvidos ela observava os desenhos de bichos expostos ali, que tinham jeito de serem da época vitoriana, século 19. Tinha uma tartaruga com um bico que parecia de pássaro. Provavelmente era de Galápagos também. Ao lado havia um caleidoscópio de águas vivas, e uma imagem de uma espécie de lobo.
Aquela era a primeira de uma série de apresentações de Simone em um festival de música clássica em um casarão no bairro de Hampstead. A sala estava cheia de gente, cada uma de um jeito. Tinha gente de turbante, velhinhos de roupa de tweed, estudantes hipsters que se vestiam iguais aos velhinhos, e até gente de calça jeans e camiseta. A fauna humana de Londres era bem mais interessante do que a animal, ela filosofou, lembrando dos pobres pombos do centro da cidade, sempre estropiados, imundos e com alguma parte do corpo faltando. Bem diferentes dos pinguins da reserva de Puerto Williams. No inverno ela costumava ajudar Lorenzo e o pai dele, que era biólogo, a colocarem armadilhas de máquinas fotográficas para os bichos. Mas depois de ter crescido em lugares cheios de animais interessantíssimos e pessoas nem tanto (com algumas exceções), ela estava feliz de ter feito a troca e estar morando em uma grande cidade.
Pulando de um pensamento para outro, logo se lembrou de mais um pinguim, o pinguim empalhado de uma casa ali perto. Que tinha paredes de madeira e móveis antigos, exatamente como a sala onde ela estava agora. Fazia pouco mais de um mês daquela tarde estranha, naquele casarão mais estranho ainda, que ela não conseguia esquecer. E que, segundo o mapa, ficava a um quarteirão dali. Quatro minutos de caminhada, mais precisamente.
Logo depois da apresentação deu uma desculpa para Simone, que estava indo comemorar em um bar ali perto, e seguiu na direção contrária, se afastando das lojas e do metrô e se encaminhando para as ruas margeadas por árvores e sombras.
Sem nem saber muito bem por quê, ela queria passar pela frente da casa. Talvez para se convencer de que o lugar existia mesmo e aquela tarde não tinha sido um sonho bizarro. Caminhou alguns minutos e logo viu a torre, escura e praticamente escondida pelas árvores.
Ela parou na frente do portão, e teve a impressão de ouvir um barulho, como um clique. O portão estava entreaberto de novo.
“Não é possível, será que o dono dessa casa nunca tranca as portas?” Pensou para si mesma, dando um passo para trás. Dentro tudo estava silencioso e escuro, como se ninguém morasse ali. Ficou um pouquinho frustrada, sem sequer entender por quê. O que exatamente estava esperando daquela caminhada, no meio da noite, para passar na frente de um lugar onde ela tinha estado por alguns minutos e do qual não sabia nada a respeito?
Era como se alguma força invisível tivesse atraído Luna para a casa naquela noite, a mesma força que fazia com que ela se lembrasse daquela criatura estranha quase todos os dias.
Se afastou do muro e esticou o pescoço, tentando ver alguma coisa nas janelas ou algum movimento no jardim. Nada. A tal força invisível devia estar errada. Não havia nada ali para se ver. Suspirou e continuou andando. Atravessou a rua e entrou no Hampstead Heath, um dos maiores parques da cidade. Daquele lado não havia casa nenhuma, com exceção de um prédio antigo na margem do parque, praticamente dentro dele.
Ela reconheceu o prédio. Era ali que um casal, pronto para ir a uma festa, tinha sido estraçalhado por um monstro. Luna havia passado a adolescência assistindo filmes de terror e se orgulhava de reconhecer locações de filmes clássicos sempre que passava por uma. Foi andando ao lado do prédio, tentando identificar onde exatamente a cena do ataque do lobisomem americano em Londres tinha sido gravada, enquanto se afastava da estrada. A lua estava enorme no céu, e as árvores ao seu redor faziam sombras no chão. Nesse momento ela sentiu seu pé afundar.
Viu a lama cobrir sua bota, mas não parou. Um pouco mais à frente estava um gramado enorme e iluminado pela luz azul da lua, mas para chegar lá teria que atravessar um trecho lamacento, passando por cima das raízes de árvores e desviando dos arbustos. Tentou pisar nas raízes, mas elas eram mais escorregadias ainda, e Luna quase perdeu o equilíbrio. Só não caiu no chão porque conseguiu agarrar um galho a tempo.
Definitivamente, andar em um parque enlameado no meio da noite, sozinha, não tinha sido a melhor ideia da sua vida. Poderia voltar pelo mesmo caminho que tinha feito, ou tentar chegar até a grama.
Seguiu em frente. Ela podia atravessar o parque e voltar para casa pela outra estação de metrô, que ficava mais ao sul. Foi seguindo por trás do prédio, o som dos carros na estrada ficando cada vez mais longe. Luna ouviu um barulho vindo dos arbustos. Provavelmente era algum bicho noturno, que devia saber melhor do que ela por onde estava andando. O ritmo dos seus passos era marcado pelo chac-choc dos pés afundando na lama, saindo da lama, afundando de novo.
Ela ouviu um barulho. Um latido, seguido de outro. Era uma sequência de latidos, cada vez mais altos. Logo depois ouviu os gritos de um homem.
“Não! Não!” Ele berrava. “Parem!”
Luna imaginou que o homem estivesse sendo atacado, mas em uma fração de segundo percebeu que na verdade os cachorros estavam vindo na sua direção. Ela se virou para onde vinha o som, mas antes que pudesse identificar qualquer coisa, sentiu um impacto contra a perna, e alguma coisa queimando sua coxa. Logo seu braço foi atingido também. Ela perdeu o equilíbrio e sentiu que estava caindo no chão, batendo com as costas em algo.
Muitos anos atrás, quando era criança, Luna tinha quase se afogado no mar. A lembrança mais forte que tinha desse dia era de relaxar o corpo e se deixar sacudir pelas ondas com os olhos bem fechados, esperando que tudo acabasse, de um jeito ou de outro.
E ela fez exatamente a mesma coisa naquela noite. Sentiu os cachorros puxarem seus braços e pernas e se deixou sacudir, ouvindo os latidos e a voz do homem gritando. Era como se tudo estivesse acontecendo com outra pessoa, e ela estivesse bem longe, apenas esperando. Uma outra voz se juntou aos gritos e barulhos. Um outro homem, talvez? Ela sentiu mais um impacto, e mais um sacolejo, dessa vez como se seu corpo estivesse sendo levantado. Depois disso não sentiu nem ouviu mais nada.

Capítulo 4: Ar

O parque à noite era como um universo. Bastava atravessar a rua em frente à sua casa, que àquela hora quase não tinha carros, e ele podia andar, invisível, quase como se fosse uma pessoa. À sua volta apenas as árvores, o gramado, tudo coberto por uma luz azulada que em vez de iluminar, o escondia.
Por ali ele não escalava muros, não andava sobre telhados, não precisava fugir de olhares humanos. Bastava andar pelos caminhos protegidos pelas árvores e pelas sombras.
Ele respirou fundo o ar gelado e úmido, ouvindo ao longe os passos de Luna. Apenas saber que ela estava ali já era suficiente. Eles dois estavam compartilhando o mesmo espaço, ainda que invisíveis um para o outro. Por que estava ali? Nem ele sabia. Desde que ela tinha entrado na sua casa, e olhado para ele, ele não conseguia afastar certas ideias da cabeça.
“E se as coisas tivessem sido diferentes? E se eu não tivesse agido com medo?” Ele pensava, remoendo o passado de anos antes, e de dias antes, e de minutos antes. Nada estava imune a questionamentos inúteis. Os pensamentos giravam como um redemoinho sem ralo, sem chegarem a lugar nenhum e sem irem embora.
Respirou fundo novamente, sentindo, ao longe, o cheiro dela, e deixou os ombros caírem. Puxou o chapéu sobre os olhos, tentando em vão esconder o rosto, em um gesto automático. O chapéu e o casaco longo, um típico trench coat cáqui, o deixavam com o vulto de um tradicional senhor inglês. Mas só o vulto era tradicional, e só como vulto ele era um senhor.
Dentro das roupas continuava sendo ele, o que quer que ele fosse.
Calculava cuidadosamente por onde seguir, ouvindo os barulhos ao redor e os passos enlameados de Luna, com medo de chegar mais perto do que seria seguro. Ele não sabia por que ela estava ali, mas isso não importava. Eles estavam respirando o mesmo ar gelado, ouvindo as folhas das mesmas árvores e debaixo da mesma luz. Os passos dela na lama soavam como se ela estivesse falando com ele. O que ela estaria falando, isso ele não sabia e não se importava.
Alguns latidos, vindos de longe, afastaram sua atenção dos pensamentos sobre Luna, e logo voltaram para ela. O som ia aos poucos ficando mais alto. Uma voz gritava, e os latidos e a voz estavam indo na direção dela.
Antes que se desse conta, ele também estava indo na direção de Luna.

Capítulo 5: Curativos

Ela abriu os olhos devagar, e fez a pergunta que provavelmente todo mundo se faz nesse tipo de situação.
“Eu morri?”
Olhou em volta, com medo de descobrir algum sinal inequívoco de que sim, ela tinha morrido num passeio lamacento pelo parque, e estava em um caixão cercada pela família e pelos amigos, todos perguntando o que raios ela estava fazendo naquele lugar, de noite e sozinha. E sem sequer poder pedir desculpas por uma morte tão besta.
Mas não tinha ninguém por perto, e Luna não se sentia morta.
Tudo no seu corpo doía. “A morte não dói,” pensou, sem saber de onde tinha vindo essa ideia. “E a morte não tem um cobertor tão fofinho,” continuou, percebendo que estava deitada em um sofá, no que parecia a sala de uma casa. Ainda estava escuro lá fora (o sol nascia tarde nessa época do ano) e um abajur iluminava o suficiente para que ela identificasse alguns quadros e móveis antigos. E uns bichos empalhados. Tudo parecia meio familiar, como se ela já tivesse estado ali antes.
E então ela entendeu. Era a casa.
Aquela casa.
Luna se assustou. Como tinha ido parar ali?
Ela se sentou, olhando em volta. Lembrava dos cachorros no parque, e de ter fechado os olhos com toda a força. Depois disso, não fazia ideia do que tinha acontecido. “Alguém deve ter me ajudado,” concluiu, mas essa conclusão não esclareceu nada. Em uma mesinha ao seu lado havia um copo com água, um prato com biscoitos, uma maçã e uma cartela de remédio para dor. Praticamente um piquenique. Sua bolsa e seu casaco, completamente cobertos de lama, estavam sobre uma cadeira, perto de um vestido estampado e um casaco que não eram seus.
Luna não sabia o que pensar. Estava aliviada de estar em um lugar seguro, e aparentemente viva. Mas ao mesmo tempo se sentia mais apavorada do que na véspera. O que teria acontecido com ela? Quem a tinha levado para aquele lugar? Na mesinha estava também um envelope, com seu nome.
Dentro dele um bilhete: “Espero que tenha descansado e esteja se sentindo melhor. Assim que você acordar um táxi vai levá-la para o hospital aqui perto, onde os médicos vão fazer curativos melhores,” ela leu. “Deixei roupas limpas para você. Que bom que está bem.”
“Quem escreveu isso?” Ela se perguntou, olhando para o papel, sem saber o que pensar primeiro. “Curativos? Como assim curativos?”
Sem procurar resposta, tentou se levantar para ir embora. A qualquer momento o… a… a criatura que morava naquela casa podia aparecer. Assim que ficou em pé, uma dor na perna a fez se sentar de novo. Olhou para baixo, com medo do que podia ver. A batata da perna esquerda estava roxa, e ela teve a impressão de ver uma espécie de lacraia estendida de um lado a outro da panturrilha. Desviou o olhar, respirou fundo. “Não posso ter um chilique agora, não posso ter um chilique agora,” sussurrou para si mesma, e olhou de novo.
Era de fato um corte enorme, de um lado a outro da batata da perna. Uma costura segurava tudo no lugar. Sentiu vontade de chorar. Não tinha noção do que tinha acontecido com ela durante a noite, sua perna e seus braços doíam, ela tinha acordado em uma casa estranha onde morava um monstro. Viu que as mangas da sua blusa estavam rasgadas e os braços também, com arranhões e cortes. As unhas estavam sujas de lama, mas os machucados estavam limpos.
Antes de conseguir avaliar direito o tamanho do estrago em si mesma, sentiu o telefone vibrar. Era uma mensagem do táxi que estava esperando por ela na frente do portão. “Que estranho,” pensou, olhando ao redor.
Luna calçou as botas e apesar da dor, conseguiu se apoiar na perna que estava menos pior e ficar de pé. Analisou a sala, tentando descobrir por onde sair, e ao mesmo tempo morrendo de medo de ver a criatura. Pegou a bolsa, o casaco e as roupas novas e seguiu mancando, se apoiando nos móveis. Viu a escadaria por onde tinha subido naquele dia, semanas atrás. Tudo parecia diferente, e de certa forma ainda mais assustador, já que agora ela sabia quem morava ali.
Mancando o mais rápido que pôde, chegou na porta, que se abriu sozinha para que ela passasse.

***
No hospital, depois de esperar um tempão para ser atendida, os médicos deram uma olhada rápida nos seus machucados e a mandaram embora, o que ela fez o mais rápido que pôde, com medo que eles fizessem perguntas que ela não soubesse responder.
Chegou para o ensaio atrasada, quase na hora do almoço. Ao sair do metrô, recebeu uma mensagem de Vlad. “Onde você está?”
Ela passou a mão pelo cabelo, tentando se arrumar um pouco, e respondeu: “Quase na porta.” Ajeitou também o vestido novo, de mangas compridas e saia longa, e entrou no prédio da faculdade. A roupa tinha sido bem escolhida para esconder as marcas, pensou, andando pelos corredores. A perna doía e ela se esforçava para não mancar.
Entrou na sala, procurando Vlad com os olhos. Luna estava ainda tremendo, perdida e nervosa, precisando de um abraço. Vlad estava sobre o palco explicando uma cena a um grupo de alunos. Sem fazer ideia do que tinha acontecido nas últimas 12 horas da vida da namorada, ele olhou para ela rapidamente e sorriu, sem interromper a frase que estava dizendo. As olheiras profundas e roupas amassadas contavam a história das últimas 12 horas da sua própria vida. Um concerto em outro país, uma festa e alguns elogios, duas horas de sono, um voo barato para o qual teve que chegar no aeroporto às cinco e quinze da manhã, para depois sair do avião e ir direto para a universidade ensaiar, sem sequer trocar de roupa.
Luna foi andando devagar e se sentou em uma cadeira livre ao lado de Simone, na segunda fileira da plateia. Falou um “oi” distraído sem deixar de olhar para Vlad, tentando descobrir no seu rosto se o concerto em Praga tinha ido bem ou mal. Simone fez um sinal para saírem da sala, e as duas foram até a máquina de café.
“Como foi ontem depois do concerto? Vocês foram para o bar?” Luna falava com uma voz animada, mas a amiga estava prestando mais atenção ao seu jeito de andar. “Espresso ou cappuccino?” Perguntou em frente à máquina, prestes a apertar o botão.
“Espresso. Duplo. Não dormi nada.” Respondeu Simone.
“A noite foi boa, é?” Ela tentou fazer uma piada, mas a voz trêmula escancarava seu estado de espírito.
“Luna…” Simone começou. “O que foi esse arranhado na sua mão? Você não estava assim ontem.”
“Nada.” Ela ficou séria, sem saber o que dizer. Não tinha se preparado para responder a perguntas.
“Você está mancando. Aconteceu alguma coisa?”
“Nada demais…” ela respondeu, fingindo estar muito interessada nas opções de bebidas quentes e instantâneas disponíveis.
“Você caiu de algum lugar? Ou foi… alguma briga?” Simone perguntou meio sem jeito.
“Briga? Tipo, briga de rua, Simone?” Luna perguntou, surpresa. “Se fosse, não ia adiantar você me perguntar. A primeira regra do clube da luta é não falar sobre o clube da luta, então…”
“Não foi o Vlad não, né?” Ela interrompeu.
“Como assim?” Luna ficou mais surpresa ainda. Vlad era mal humorado, era verdade, mas como Simone podia pensar isso?
“Claro que não!” E completou. “O Vlad está fora de casa, ele passou as duas últimas noites em Praga. Isso aqui foram cachorros! E além disso…”
“Cachorros? Como assim cachorros?” Simone deu um pulo. Na pressa de esclarecer o mal entendido, Luna não percebeu que um ataque de cachorros não era exatamente uma história tranquilizadora.
Luna descreveu, então, o que tinha acontecido. Mas teve o cuidado de dizer que tinha sido levada para o hospital pelas pessoas que estavam por perto, e que tinha passado a noite lá.
“Não sei como você gosta do espresso dessa máquina,” Luna continuou, tentando a todo custo mudar de assunto e entregando à amiga um copinho de isopor cheio de café.
“Não gosto. Mas preciso ficar acordada.”
“O que aconteceu, afinal?”
“Não dormi. Fiquei cuidando dos gatos da vizinha,” ela falou.
“Como assim?”
“Minha vizinha se mudou e deixou os gatos para trás, sem avisar ninguém,” tomou um gole do café e fez uma careta. “Sem comida. Eles gritaram a noite inteira, até que eu resolvi dar uma olhada e vi o apartamento vazio, sem os móveis, e acabei forçando a janela para pegar os bichos.”
Luna sacudiu a cabeça. “Como alguém faz uma coisa dessas?”
“Levei os bichos para casa, dei um resto de comida e leite. Imagina a cara do meu pai chegando do trabalho às seis da manhã e dando de cara com três gatos…” Ela riu.
Luna riu também. “Um dia eu vou visitar os três,” comentou, pegando o copo com café instantâneo misturado com leite em pó que a máquina chamava de cappuccino. As duas compraram uns sanduíches para comer durante o intervalo seguinte e voltaram para a sala, em silêncio, cada uma preocupada com seus próprios problemas.
Enquanto Simone pensava nos gatos, Luna imaginava como explicar para o namorado sua aventura da última noite. Seria impossível esconder dele os machucados por muito tempo. No final do dia, quando ela e Vlad andavam dois quarteirões até o carro para voltarem juntos para casa, ele finalmente percebeu que ela estava andando com dificuldade.
“O que houve com a sua perna?” Ele perguntou. “Você se machucou?”
Ela respirou fundo, pensando na melhor maneira de contar a história, enquanto sentava no banco do carona e colocava sua bolsa no colo. Percebeu que o zíper da bolsa estava aberto e a carta com seu nome, que ela tinha trazido da casa, estava à vista. Será que Vlad tinha visto? Fechou o zíper o mais rápido que pôde. Explicar os machucados seria chato – mas explicar aquela carta seria impossível. Ela colocou o cinto de segurança e começou a contar como tinha sido o concerto de oboé de Simone, sem pressa de chegar na parte dos cachorros.

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